O bebê ficou cerca de 9 meses em íntimo contato com sua mãe, 24 horas por dia. Para ele, esse é o ambiente essencial e necessário. Com o nascimento, que é considerado o primeiro grande trauma da vida de uma pessoa, a separação torna-se difícil e dolorosa. A amamentação, neste caso, é a forma de manter a ligação íntima entre mãe e bebê após o nascimento. O corpo a corpo, olho no olho, o olfato e o paladar, a voz materna, tudo faz com que o bebê se acalme e sinta que está num ambiente conhecido.  É importante destacar que nos primeiros meses de vida o bebê mãe e bebê estão fusionados e por isso a necessidade de contato constante, amamentação em livre demanda, cuidados e atenção ao que o bebê necessita.

Esse apego, que é um vínculo emocional profundo que conecta a mãe e o bebê, é extremamente importante para ambos, para que aprendam a se conhecer e se amar e para que o bebê se desenvolva emocionalmente de forma saudável, com segurança, saúde emocional e física, capacidade de pensar e de ser criativo.

Certamente a amamentação é uma das formas de criação de laço afetivo entre mãe e bebê. Não é a única, mas uma das formas mais importantes para isso. A mãe se envolve profundamente com seu filho, reconhece-o como uma pessoa, dedica-se totalmente a ele nos primeiros meses, oferece tudo que ele necessita. Desta forma ele crescerá seguro e confiante e quando se perceber como alguém separado se sua mãe, entendendo-se como um sujeito, manterá o vínculo afetivo de cuidado e amor, de empatia e dedicação.

Na amamentação a relação é íntima, o toque da pele, a temperatura, o carinho, o leite, a forma de segurar e o olhar são percebidos pelo bebê. A mãe fala e o bebê responde, e assim se estabelece a comunicação entre ambos. Quanto mais próximos estiverem, maior o vínculo afetivo.

 Não há como afirmar que um bebê amamentado desenvolverá menos problemas emocionais na infância: a maternidade é algo muito mais amplo que o ato de amamentar. A sustentação, o cuidado, a apresentação do mundo, o colo, também são importantes para a saúde emocional de um bebê. Há vários fatores que podem interferir nessa saúde emocional, mas não há como negar que um bebê amamentado é mais inteligente e seguro. Essas informações foram publicadas num estudo bem extenso realizado no Brasil, mais especificamente no Rio Grande do Sul.

Os problemas emocionais dependem de vários fatores, inclusive da própria percepção e interpretação da criança para com suas vivências infantis, da relação com a mãe, inicialmente, mas também com o pai, irmãos, avós e a família em geral.

A criança pode ficar mais tranquila e menos ansiosa se for amamentada, pois ela está segura de que é suprida em suas necessidades fisiológicas (alimento, cuidado com o corpo) e também nas emocionais (atenção, colo, acolhimento, amor, carinho). A criança sempre ficará mais tranquila quando estiver em contato com o corpo materno, exatamente porque se recorda da experiência intrauterina, da completude dessa fase. A amamentação definitivamente favorece a tranquilidade, associada ao colo, cama ou quarto compartilhado, embalo, carinho, atenção às necessidades e incômodos.

É extremamente importante que a mãe converse com seu bebê durante a amamentação e todas as demais atividades que for realizar com ele. A linguagem é que evoca o bebê a ser sujeito, o integra na sociedade. Desde o útero é importante que os pais conversem com o bebê.

A voz materna possui um efeito espetacular sobre o bebê. Ainda que ele não compreenda linguisticamente sua fala, sua voz permite que ele interprete as intenções e emoções maternas, sendo que posteriormente o bebê será inserido na linguagem e utilizará da fala para substituir a presença física da mãe.

A forma que a mãe, pai e outras pessoas falam com o bebê é chamado de manhês (frases curtas, fala cantada, no diminutivo, mais aguda). Essa forma chama a atenção do bebê que olha e responde. Isso é considerado o embrião da comunicação.

Como já mencionado, não é apenas a amamentação que favorece o desenvolvimento emocional do bebê, mas todo o cuidado, carinho e amor dedicado a ele. Uma mãe que, por várias razões, não amamentar, pode estabelecer vínculo afetivo da mesma forma, mas é importante que ela cuide e alimente (o bebê precisa se identificar com um rosto, que é o da mãe ou sua substituta), seja carinhosa e olhe, converse com o bebê da mesma forma como faria no aleitamento materno.

É importante, também, favorecer os ritmos do bebê, permitindo que ele se alimente quando tiver fome (livre demanda), permaneça o máximo de tempo possível em contato com o corpo materno (no colo, sling), seja embalado e acariciado.

Ao contrário do que se prega, o contato não “estraga” o bebê, não o deixa inseguro ou violento, mal-educado ou acostumado. Não há nenhum estudo que comprove tal hipótese, ao contrário, é a falta de amor, cuidado, colo, atenção que levam uma criança a se tornar insegura no amor dos pais.

Dra. Cristiane Gomes, IBCLC