Amamentação: proteção e nutrição física e emocional.

O “inocente” complemento da maternidade

20095 Views 2 Comments

O oferecimento do famoso complemento nas maternidade, logo após o nascimento do bebê, é uma prática corriqueira nos hospitais e sua indicação se dá por alguns motivos, tais como permitir que a mãe durma à noite, ausência ou reduzida produção de colostro, risco de hipoglicemia, para o bebê não passar fome, entre outros.

O fato é a produção de colostro acompanha naturalmente a capacidade gástrica do recém-nascido, que no primeiro dia de vida é de, aproximadamente 3-5 ml por mamada. Isso mesmo! Com a sucção da mama é que o leite será produzido e aumentará à medida em que o estômago do bebê suportar mais leite!

Natureza perfeita!

No entanto, quando há oferecimento do “inocente” complemento, que geralmente vai de 10 a 30 ml (agora parece um volume exagerado, não é?), ocorre a distensão do estômago do bebê e… adivinhem… nas próximas mamadas ele precisará desse volume! Só que a mama ainda está produzindo o que a natureza sábia comanda, os 3-5 ml. Nesse momento pode começar os problemas: o bebê mama, chora, a mãe se desespera, acha que não tem leite, ou pior, que seu leite é fraco, e aí vem mais complemento… e mais… até que a mãe chegue à conclusão que realmente não possui leite suficiente. Isso tudo na maternidade!

Por isso, na grande maioria dos casos, a indicação é de livre demanda e aleitamento materno exclusivo. A sucção frequente da mama estimulará a produção de mais leite e promoverá a apojadura (3-7 dias após o parto), momento em que grande quantidade de leite será produzida!

Importante destacar a fisiologia da lactação: a produção se dá pelo estímulo do complexo aréolo-mamilar (sucção da mama). Há o envio de mensagem para a hipófise, no cérebro, para liberar prolactina (produção do leite) e ocitocina (liberação do leite). Em resumo: muita sucção = muito leite, pouca sucção = pouco leite, nenhuma sucção=nenhum leite!

Claro que existem situações especiais em que o uso do complemento é necessário e importante, no entanto são exceções. A grande maioria das mães e bebês possuem todas as condições de iniciar e estabelecer o aleitamento materno exclusivo (somente o leite materno) e este deve iniciar logo após o parto e continuar até os seis meses de vida. Após o sexto mês a mãe deve iniciar a alimentação complementar e continuar amamentando o bebê até 2 anos ou mais.

Se o complemento for oferecido pela mamadeira, existe maior risco de ocorrer a chamada confusão de bicos, pois o recém-nascido confunde a forma como deve sugar a mama e pode rejeitá-la. Caso haja real necessidade de uso de complemento, a indicação é sempre que seja oferecido por copo ou colher na ausência materna e por meio de translactação quando ela estiver presente.

Além de produzir o tal ciclo vicioso que pode levar ao desmame precoce, o nada inocente complemento pode também favorecer o desenvolvimento de alergias alimentares no bebês, se o leite oferecido for o artificial. Sabe-se que o contato precoce com a proteína do leite de vaca (sim, os leites de lata são de vaca!) leva à sensibilização e, posteriormente, o bebê pode apresentar alergia à proteína do leite de vaca (APLV).

Melhor do que oferece complemento é a mãe amamentar ou retirar seu próprio leite para ser oferecido por copo, colher ou mesmo pelo método da translactação. Cada técnica pode ser utilizada de acordo com as necessidades do bebê, por isso procure sempre um especialista em amamentação para orientá-la!

2 Comments
  • Debora matias fevereiro 8, 2016, 2:31 pm Responder

    Excelente texto. A bem verdade. To no dilema pra saber se minha filha é APLV… Ela tomou complemento na maternidade. As fezes tem muito muco e ja teve rajas de sangue. Nos exames deu presença de leucocitos, sangue e substancia redutota positivo.

    • Drª Cristiane Gomes fevereiro 9, 2016, 1:51 pm

      Debora, obrigada pelo contato. Infelizmente é muito comum o bebê ter contato com a proteína do leite de vaca precocemente na maternidade e isso pode, sim, provocar uma sensibilidade e, posteriormente, a APLV. Indico que procure um gastropediatra para diagnóstico e tratamento. Melhoras pra sua filha!

Leave a Comment