Amamentação: proteção e nutrição física e emocional.

Tenho leite mas meu bebê não engorda: por quê?

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Recebi uma solicitação de uma mãe preocupada que desejava ler algum material sobre a dificuldade de ganho de peso de bebês mesmo quando a produção de leite é adequada ou até mesmo aumentada.

 

Inicialmente devo explicar a produção de leite do ponto de vista da fisiologia. Após o nascimento a regulação da produção de colostro é endócrina, até por volta de 3-5 dias após o parto. Durante este período a produção ocorrerá ainda que a mãe seja separada de seu filho, como no caso de prematuros que precisam permanecer sob cuidados especializados na UTI neonatal ou Unidade semi-intensiva, ou ainda quando um bebê está em observação no berçário.

 

Isso significa que, mamando ou não, estimulando ou não a mama, os hormônios que produzem e liberam leite são liberados (lembrando que quando o bebê é colocado em contato com a mãe na primeira meia hora há maior liberação desses hormônios e manutenção de seus níveis altos por mais tempo do que bebês precocemente distanciados de suas mães).

 

Após esse período, em que o colostro é liberado, a produção e liberação passa a estar relacionada ao estímulo na mama, ou seja, quanto mais o bebê sugar, com maior frequência e efetividade, maior a produção de leite, quanto menos o bebê sugar, menor a produção e se o bebê não sugar e a mãe não estimular a mama por meio de massagens e ordenha frequente, a tendência é da produção reduzir até cessar. Ainda que cesse completamente, a mulher pode relactar, isto é, pode retornar ao estímulo mamário por meio da sucção do bebê, massagens e ordenha e a produção de leite retorna aos poucos até que a produção seja compatível com a necessidade de seu filho.

 

Essa informação é importante porque algumas mulheres precisarão estimular mais a mama para aumentar a produção de leite, especialmente quando seus bebês foram separados, permaneceram algum período sem mamar no seio, necessitaram de complementação ou houve uso de bicos artificiais (incluindo intermediários de silicone, que geram um ciclo de sucção inefetiva – redução da produção). Esses casos são mais conhecidos e as mães sabem que precisam amamentar com maior frequência, retirar o leite e estimular a mama várias vezes ao dia.

 

Agora, e no caso de a produção láctea ser intensa? Ainda que seja o sonho de toda a mãe possuir grande quantidade de leite, muitas vezes isso pode atrapalhar um pouco, especialmente após a adaptação da produção à demanda do bebê.

 

Por que algumas mães apresentam maior produção de leite? Pode ser porque seu organismo libere maior quantidade dos hormônios da lactação, pode ser por algum problema na hipófise que libera quantidades excessivas desses hormônios, por uso de medicamentos ou até mesmo porque o bebê não consiga sugar efetivamente a mama.

 

A ciência tem demonstrado que o leite materno é alimento dinâmico, libera gordura em vários momentos da mamada e não somente no final como se acreditava. Sabe-se também que quanto mais a mama for esvaziada, maior a quantidade de gordura no início da próxima mamada, por isso é importante que a mãe compreenda duas coisas: 1) ela não deve deixar leite nas mamas e 2) ainda que a gordura seja liberada durante toda a mamada, é importante estimular que o bebê esvazie ao menos uma mama (e esse esvaziamento permitirá que haja mais gordura no início da próxima mamada).

 

Especialmente no início da lactação os bebês podem não dar conta do volume produzido, por isso é importante que a mãe ordenhe algum volume antes ou após para permitir as mamas sejam esvaziadas ou amamentar com maior frequência, isso se o bebê não estiver ganhando peso.

 

É importante apenas esclarecer que o ganho de peso não é estático, pois estamos falando de um bebê, um ser vivo: nos primeiros 15 dias o bebê perde peso, depois disso deve ganhar e manter-se na curva de crescimento, mas isso não significa que tenha que ganhar 30-35 gramas por dia. Isso é uma média, não um mínimo. É importante avaliar a saúde geral do bebê, sua atividade, seu desenvolvimento global, se a mamada está efetiva, suas eliminações. O peso isoladamente não significa nada, apenas em conjunto com as demais avaliações. Em alguns períodos o bebê pode perder peso por conta de doenças, refluxo, infecção urinária, erupção dentária, diarreia e assim que estiver bem voltará a ganhar peso.

 

Dessa forma, se o bebê está saudável, com eliminações presentes e urina abundante, olhar atento e movimentação corporal e mesmo assim não ganha peso (perde ou mantém), é importante verificar a efetividade da mamada (pega, posição, músculos orais, movimentos de língua e mandíbula, força, ritmo, pausas). Muitas vezes a mãe tem leite abundante, mas o bebê não consegue abocanhar corretamente a mama e retirar o que necessita. Os engasgos podem ser frequentes caso o fluxo seja aumentado, mas isso não deve preocupar os pais, especialmente se o bebê tem tosse efetiva (nesses casos a mãe pode ordenhar um pouco de leite antes da mamada e amamentar deitada com o bebê por cima para reduzir um pouco o fluxo). Também pode acontecer de o bebê permanecer longos períodos sem mamar e isso pode reduzir a ingesta e consequentemente o ganho de peso. Em algumas situações,  ele pode adormecer rapidamente e não ingerir o alimento ou ainda pode apresentar uma disfunção oral (resultante ou não de uso de bicos artificiais) que precisa ser trabalhada por um consultor em amamentação.

 

O que mais assusta as mães nessa situação é ter a indicação do uso de leites artificiais sendo que possuem produção de leite em abundância, o que fatalmente fará com que muitas mães acreditem que seu leite é fraco e não sustenta o bebê. Isso não é verdade! Provavelmente há um problema de manejo da amamentação que pode ser solucionado com um profissional capacitado. Muitas vezes a mãe poderá retirar seu próprio leite e oferecer por translactação ou copo até que sua sucção esteja aprimorada, e então voltará à livre demanda e ao seio materno exclusivamente.

 

Antes de acreditar que seu leite é fraco, procure ajuda especializada. Acredite, seu leite é o melhor alimento para seu filho e, em geral, ele não necessita de complemento de leite artificial, pois com alguns ajustes e técnicas há condições de voltar a ganhar peso.

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