Amamentação: proteção e nutrição física e emocional.

Será mesmo necessário amamentar em horários rígidos?

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Uma dúvida constante das mães que pedem auxílio no consultório ou em grupos de apoio é com relação à duração e intervalos das mamadas. Alguns profissionais indicam intervalos de 3 em 3 horas, outros em livre demanda. Uns dizem que a mulher deve acordar o bebê para mamar, outros ainda que se deve deixá-lo despertar sozinho para a amamentação. Além disso, outras orientações contrárias como amamentar 15 minutos em cada mama, 30 minutos, oferecer apenas uma mama por mamada, ou ambas, ou ainda não trocar de mama até que ela esvazie, ainda que precise deixar 2 ou 3 mamadas do mesmo lado, são informações que confundem as mulheres, por isso hoje iremos discutir sobre esses mitos.

 

A orientação geral, baseada em estudos e documentos de órgãos nacionais e internacionais, refere a importância da livre demanda da amamentação, que significa respeitar as necessidades de cada bebê no que se refere ao apetite, volume desejado e intervalos necessários. Amamentar em livre demanda está relacionado ao atendimento do lactente sempre que este solicita alimentação, não deixá-lo chorar desnecessariamente (pois não atender o choro do bebê pode trazer consequências sérias para o desenvolvimento neurológico, emocional e intelectual), permitir que ele mame o quanto, como e nos intervalos que desejar. Veremos algumas particularidades para que os pais estejam atentos, mas, em geral, a livre demanda deve ser respeitada.

 

Qual o intervalo correto entre as mamadas? 

 

Não há intervalo correto para a amamentação, mas o que se sabe é que não deve ser fixo e rígido. Ao orientar que se deixe o bebê chorando até que a hora de amamentar chegue, há um grande erro de interpretação de suas necessidades nutricionais e hidricas. Cada bebê tem necessidades individualizadas e características próprias. Colocá-los todos em uma mesma orientação é reducionista e perigoso. Algumas situações específicas devem ser analisadas para que os pais saibam como agir.

 

Por exemplo, nos casos de prematuros, bebês muito novos, com risco de hipoglicemia, com dificuldades de pega e ordenha das mamas, com reduzido ganho de peso ou perda de peso, pode ser necessário que o intervalo seja inferior a 3 horas. Nesses casos a mãe deverá acordar o bebê trocando suas fraldas, tirando sua roupa, manipulando delicadamente seus pés, mãos, bochechas para que a amamentação ocorra com maior frequência. Isso favorecerá tanto o estímulo das mamas para aumento da produção láctea quanto o aumento da ingestão do lactente.

 

Uma questão a ser considerada é que, como o leite materno é de rápida e fácil digestão, é difícil que os bebês durmam por longos períodos, ao contrário do que ocorre no aleitamento artificial, já que o leite artificial é de difícil e lenta digestão, o que favorece maior tempo de sono dos bebês (sem significar que seja melhor para sua saúde e nutrição).

 

Especialmente em períodos de picos ou saltos de crescimento, muitos bebês passam a mamar de hora em hora. Essa demanda por amamentação mais frequente se deve às crescentes necessidades por maior volume de leite materno e, ao sugar com maior frequência, o leite será produzido para atender suas necessidades. Se o bebê está esvaziando ao menos uma mama, a mulher pode ficar tranquila sobre a qualidade do leite e aguardar alguns dias a semanas para a amamentação voltar à rotina.

 

Atenção especial deve ser dada aos bebê não esvaziam a mama e adormecem rapidamente. Nesses casos, os intervalos reduzidos são sinal de alerta para a deficiente ingestão e ordenha da mama. As mães devem procurar atendimento especializado para auxílio na amamentação, acompanhar a diurese (xixi), hidratação, ganho de peso, atividade e desenvolvimento do bebê.

 

 

Qual a duração correta da amamentação?

 

Outra questão complexa é a duração da mamada, pois cada bebê tem um ritmo de sucção, pausas, necessidades. Um bebê de um dia suga de forma diferente do que um bebê de 3 meses e claro que provavelmente o primeiro necessitará de maior tempo para esvaziar a mama do que o segundo.  Por esse motivo, não há duração mínima ou máxima para o bebê ser amamentado.

 

Por exemplo, os bebês prematuros e mais jovens demorarão mais para esvaziar as mamas porque sua sucção ainda está se desenvolvendo. Suas pausas são mais longas, podem adormecer rapidamente após o início da mamada, apresentar disfunções orais ou imaturidade dos reflexos. Necessitam de acompanhamento para aprimorar a pega e sucção.

 

Outros bebês, mesmo que jovens, mamam por menos tempo e se sentem satisfeitos e por isso não devem ser acordados para novas tentativas, pois podem apresentar stress e choro. O bebê revela que está satisfeito a partir do momento que cessa a sucção e realiza fechamento da cavidade oral, sem abertura com estímulo na região dos lábios (não apresenta reflexo de procura ou sucção).

 

Alguns lactentes permanecem 40-50 minutos na mama, sugando vigorosamente. Não se deve interromper a amamentação desses bebês porque mamam por mais tempo. Além disso, é importante permitir que realizem a sucção não-nutritiva, que é a sucção por prazer, importante para seu desenvolvimento psíquico.

 

Oferecer uma ou ambas as mamas em cada mamada?

 

Depende. Alguns bebês esvaziam uma mama e estão satisfeitos. Outros nem conseguem esvaziar a mama toda, por isso pode ser interessante realizar expressão de algum volume anteriormente à mamada e permitir que ele esvazie a mesma. Além disso, alguns bebês precisam esvaziar as duas mamas para se sentirem satisfeitos ou apenas algum volume da segunda mama. Desta forma, a mãe pode oferecer as duas mamas se o bebê desejar, desde que ele esvazie ao menos uma delas.

 

Não se deve restringir o acesso do bebê à mama se ele tem apetite para isso. Não faz sentido amamentar em uma mama e, ao observar o bebê chorando, oferecer complemento de leite artificial se existe leite na outra mama. Isso é importante para que a mãe compreenda que ainda que o bebê ordenhe as duas mamas, sua produção será aumentada para atender à demanda de seu filho.

 

É importante destacar que mais de 80% do leite é produzido durante a mamada, por isso ainda que o bebê ordenhe leite de ambas as mamas e ainda precise se alimentar, a mãe pode retornar à primeira mama. O estímulo favorecerá maior produção!

 

Esses mitos, caracterizados por rigidez de horários, intervalos e restrição de mamas pode levar à inserção desnecessária de leite artificial, reduzir o estímulo das mamas e com isso promover redução da produção láctea, levar à inclusão de bicos artificiais com consequente risco de desmame precoce. Analisar cada caso, cada bebê, suas necessidades e possibilidades é imprescindível para o sucesso no aleitamento materno.

 

 

2 Comments
  • Monique Oliveira agosto 21, 2016, 12:13 am Responder

    Adorei o texto! Meu bebê de 7 meses ficava mais de hora mamando e não ficava mais que meia hora fora do seio. No início foi muito estressante, mas depois, desencanei e deixei rolar. Hoje ele esvazia os dois seios em 5 minutos e mama 4 a 5 vezes por dia só é eu sinto saudades dele grudadinho o tempo todo!

    • Drª Cristiane Gomes agosto 21, 2016, 12:48 pm

      Monique, que bom que entendeu! Bebês amamentados tem fome mais rápido e até mesmo ficam mais tempo e com menores intervalos na mama para aumentar a produção do leite. A natureza é perfeita, nós que complicamos com horários rígidos, não é mesmo? O bebê vai aprimorando a sucção, começa a conseguir retirar o leite que necessita mais rápido e ele mesmo vai estabelecendo uma rotina. Preciamos entender que os bebês precisam de atenção constante, são totalmente dependentes e sua única forma de comunicação é o choro. Se eles tem fome, precisam ser alimentados, independentemente do horário. É estressante para a mãe no início, mas vale muito à pena. Parabéns pelo seu bebê!

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