Amamentação: proteção e nutrição física e emocional.

Porque não fazer um desmame abrupto

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Sempre ouvi mães comentando sobre as recomendações profissionais e familiares para desmamar os bebês, geralmente de forma abrupta. Um desmame abrupto pode gerar muito choro e sofrimento (de ambas as partes), problemas de sono, de alimentação, problemas emocionais e de relação mãe/bebê.

 

Uma colega contou que, para conseguir desmamar sua filha, viajou durante o final de semana e deixou sua filha com os avós. Ela, chorando de um lado e sua filha chorando de outro. Ela relatou sentir muita culpa por ter feito o que fez, mas referiu ter sido orientada por um profissional de saúde.

 

Outras formas abruptas de desmame são bem conhecidas: mentir para a criança que a mama está machucada, que o leite secou, passar substâncias como ruibarbo (planta medicinal com sabor amargo), borra de café, merthiolate, band-aid. São inúmeras receitas para que a criança seja desmamada, mas será que são formas saudáveis para mães e bebês? Certamente não!

 

Com o nascimento, que é considerado o primeiro trauma na vida de uma pessoa, a amamentação é a forma que o bebê tem de sensação de continuidade intrauterina. Inicialmente ele não tem consciência de si: ele e a mãe são uma coisa só e a amamentação, nesse momento inicial, é de extrema importância para que ele tenha suas necessidades satisfeitas, de alimento, de contato, da sensação de que o alimento surge quando deseja e, desta forma, é como se ele criasse o seio e o leite, o que é chamado de alucinação do seio.

 

Nos primeiros meses a amamentação em livre demanda é extremamente importante, pois o bebê não tolera esperar por longos períodos, precisa que suas necessidades sejam satisfeitas completamente e a mãe é o único ambiente que ela conhece. Quanto mais presente, constante e resolutiva, melhor o desenvolvimento físico e emocional do bebê.

 

Com o passar dos meses, ele começa a perceber que há presença/ausência da mãe, e que ele é uma pessoa separada dela; que tem um corpo com contornos e que se relaciona com uma mãe que é um outro, que se aproxima e se afasta, que faz com que espere cada vez mais, que frustra algumas expectativas de sentir apenas prazer o tempo todo. Com a maturidade da criança, a mãe percebe que pode se afastar aos poucos, se ausentar em alguns momentos e permitir que seu filho se desenvolva, passe da dependência absoluta para a dependência relativa, rumo à independência e autonomia.

 

O desmame, desta forma, é o segundo trauma na vida da criança. É a partir dele, chamado de castração oral, a criança pode se perceber como um outro de forma plena, se reconhecer como sujeito, ter um ego estruturado e seguir seu desenvolvimento para a formação do superego (que simboliza as regras, leis e limites).

 

Dessa forma, é reconhecido que o desmame é um processo, que deve ser iniciado a partir do momento que a criança começa a morder (com a erupção dentária e a possibilidade de aprender a mastigar) e deixar cair objetos (aprende a lidar com a presença e a ausência dos objetos e, consequentemente, da mãe). Isso acontece a partir de 6 meses, com o início da alimentação complementar, momento em que a criança passará a comer outros alimentos e começará, aos poucos, a reduzir as mamadas (o que não quer dizer que o desmame deve acontecer aos 6 meses, mas o início do processo, com cada vez mais alimentação e maiores intervalos entre as mamadas).

 

A recomendação para o desmame noturno, por exemplo, é a partir do primeiro ano, momento em que a criança já se alimenta bem, tem condições de aceitar outras formas de consolo que não apenas a mama e a amamentação, tem sua linguagem desenvolvida e já compreende muitas coisas. O desmame conduzido pode ser iniciado após o primeiro ano caso seja o desejo da mãe, mas é recomendado após o segundo ano de vida.

 

O importante é que o processo seja natural ou bem conduzido e gentil, com muita conversa, contato e presença da mãe, pautado na verdade da relação e na transparência. A criança pode compreender que a mãe está cansada e deseja concluir essa etapa, por isso o diálogo é imprescindível.

 

Realizar outras atividades com a criança como brincar, cantar, dançar, realizar atividades manuais, ler histórias e manter o contato são formas de conduzir o desmame com carinho e respeito, além de considerar o desenvolvimento do filho, percebendo se ele está preparado para o desmame.

 

Na verdade, quanto mais abrupto, com maior ausência materna, menos carinho e atenção, mais insegura será a criança, especialmente no amor de sua mãe. Quanto mais tranquilo e respeitoso, mais segurança e autonomia a criança terá. Aos poucos, retirando uma mamada a cada 15 dias, respeitando necessidades e ocorrências (doenças, mudanças, regressões), o desmame pode ser conduzido favoravelmente.

 

Quanto à mãe, quanto mais ela ouvir orientações externas, sem levar em consideração suas percepções e sentimentos, mais culpada poderá se tornar com relação ao desmame e há maiores chances da relação entre ela e o bebê se alterar. A mulher deve estar segura e também preparada para esse processo; ninguém deve pressionar, recomendar ou prescrever um desmame sem que este seja o seu desejo.

 

Finalmente, é importante que cada mãe escolha a forma de conduzir seu desmame. Receitas prontas, passos infalíveis, estratégias rígidas podem servir para algumas, mas não para todas. Cada mulher deve sentir como deve conduzir seu processo, pois o desmame não é apenas do bebê, mas também da mãe.

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