Amamentação: proteção e nutrição física e emocional.

Por que não há recomendação para uso de água de coco em maternidades ou após a alta hospitalar para hidratação ou alimentação de recém-nascidos

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O colostro possui vários componentes que não estão presentes na água de coco, especialmente as vitaminas, mas também os fatores de proteção, as imunoglobulinas – especialmente a IgsA, que previne contra alergias. Desta forma, pode-se questionar a segurança do uso da água de coco e o risco de alergias em recém-nascidos.

Além disso, a maioria dos componentes de extrema importância para o crescimento e desenvolvimento cerebral, do SNC, mielinização e nutrição estão muito abaixo do necessário a um bebê, especialmente a energia (calorias). Por outro lado, magnésio, potássio e sódio estão em excesso na água de coco, fato que pode levar a sobrecarga renal, entre outros problemas e riscos.

Sódio e potássio em níveis elevados podem levar a duas situações de risco: hipernatremia e hiperpotassemia. A primeira pode levar à desidratação celular, causando sintomas como hiperpnéia, agitação, choro, letargia, insônia e risco aumentado de ruptura vascular cerebral (hemorragias). Já a segunda pode gerar transtornos metabólicos e renais, com riscos ao Sistema Neuromuscular e cardíaco, especialmente com sintomas de arritmia (Valente e Atallah, 2018 – Atualização terapêutica: manual prático de diagnóstico e tratamento – Cochrane Brasil). O excesso de sódio, mesmo por via oral, pode desencadear os sintomas relatados, já no caso do potássio, é uma incógnita, mas pensando em recém-nascido, é importante considerar o risco.

A caseina é específica da espécie, portanto ausente na água de coco, o que pode interferir na digestão enzimática do recém-nascido. Já o colesterol, também ausente na água de coco, é essencial para o crescimento do bebê e está presente em maiores quantidades no colostro, o que sugere autorregulação da secreção endógena no futuro.

Esses são apenas alguns aspectos que podem ser observados na tabela comparativa (abaixo), mas já suficientes para contraindicar totalmente o uso de água de coco para recém-nascidos. Outros aspectos a serem considerados seriam: risco de contaminação e infecção, complicações decorrentes de distúrbios metabólicos, desidratação, perda de peso, sobrecarga renal.

Além disso, ao se oferecer um líquido sem nutrientes suficientes e outros em excesso, há um preenchimento gástrico ineficaz, pode haver redução das mamadas e, consequentemente, redução da produção láctea, que está em seu início e necessita da livre demanda para se estabelecer.

O uso de qualquer líquido além do leite materno é um caminho para o desmame precoce, portanto, já desaconselhado há muito pelo Ministério da Saúde, Organização Mundial da Saúde e estudos científicos realizados em todo o mundo.

É importante salientar que o colostro tem o início de sua produção logo após o parto, tem regulação autócrina nos primeiros dias e sua produção e liberação ocorrem de acordo com uma programação natural pré-establecida. 

De acordo com ABM (2017) e Core Curriculum for Interdisciplinary Lactation Care (2019), o volume de colostro nas primeiras 24 horas de vida varia entre 3-7 ml por mamada, e com o estímulo frequente das mamas ocorre aumento paulatino nos dias subsequentes. 

Este fato é normal e totalmente esperado, não havendo necessidade de complementação de nenhum tipo a priori. Apenas nos casos de risco real de hipoglicemia ou de sua ocorrência (ABM Clinical Protocol #1: Guidelines for Blood Glicose Monitoring and Treatment of Hypoglycemia in Term and Late-Preterm Neonates, Revised, 2014) será necessária avaliação, apoio, incentivo ao aleitamento e tratamento adequado a cada caso.

Se for necessário ajuste da ingestão alimentar como tratamento, a primeira opção é ordenha do colostro materno e oferecimento por copo ou colher; a segunda, recorrer ao leite humano ordenhado pasteurizado (bancos de leite humano) e, em último caso, às fórmulas infantis específicas para recém-nascidos, sempre levando em conta o volume da dieta à capacidade gástrica de cada faixa etária, oferecimento por copo ou colher para evitar a confusão e bicos e manutenção do estímulo ao aleitamento materno com maior frequência com apoio profissional constante. Neste caso, é imprescindível evitar o desmame precoce!

No que se refere à grande preocupação com a perda de peso intra-hospitalar, é importante destacar que os recém-nascidos realmente podem sofrer perdas dentro da normalidade (por volta de 10-15% do peso), recuperando seu peso de nascimento por volta de 14 dias de vida (Saavedra, 2016). Nessa situação, é mais efetivo ter uma equipe capacitada para dar apoio, informação e auxílio quanto à pega, posição e técnica do aleitamento materno, do que utilizar-se de outros líquidos para hidratação ou nutrição. 

Toda equipe hospitalar tem o dever de incentivar o aleitamento materno exclusivo, em livre demanda, com frequência, para que seja possível amenizar a perda de peso antes que esta traga preocupações.

É também papel dos profissionais poupar os familiares de stress desnecessário e cobranças com o ganho de peso ainda no período de internação. Considera-se mais arriscado oferecer outros líquidos, sem nutrientes específicos e com menor energia, como a água de coco, por exemplo, do que intervir nas possíveis dificuldades de aleitamento materno.

Dra. Cristiane Gomes, IBCLC 
Colaboração: Fabiana Cainé Alves, IBCLC e 
Patrícia Mesquita Gonçalves, IBCLC

Tabela – Comparação entre a composição de 100 ml de colostro humano com a composição de 100 ml de água de coco 
(Fonte: Composição do colostro – livro: Amamentação: bases científicas; Composição da água de coco – Departamento de Informática em Saúde – Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo – https://tabnut.dis.epm.br/alimento/12119/agua-de-coco)