Amamentação: proteção e nutrição física e emocional.

Livre demanda: até quando?

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A orientação geral, em todos os cursos de gestantes, livros e orientações de consultoras em amamentação, é de que o aleitamento materno deve ser oferecido em livre demanda, mas o que é isso e até quando ela é indicada?

A livre demanda significa oferecer a mama ao bebê sem horários rígidos ou intervalos fixos. Isso significa que sempre que o bebê solicitar, deve mamar o quanto tempo desejar, nos intervalos que necessitar, esvaziando ao menos uma mama mas, se desejar, pode mamar as duas.

A livre demanda deve ser realizada sim, mas sempre com inteligência. A mãe deve ter atenção se o bebê for prematuro, estiver perdendo peso ou quando a produção de leite diminuir. Nesses casos, inicialmente oferecemos com maior frequência, muitas vezes com necessidade de acordá-lo para mamar. Isso até que uma rotina se estabeleça, que ele esteja melhor, sem tanta sonolência durante as mamadas, com melhor ganho de peso ou com a produção de leite regularizada.

Nos casos de bebês saudáveis, que esvaziam a mama com facilidade, estão com ganho de peso, a livre demanda pode ser adotada sem preocupações. Alguns dias o bebê irá acordar para mamar com alguma rotina, em outros pode ter mais fome, em outros querer dormir por mais tempo. A auto regulação do bebê, nesse caso, será o termômetro para as mamadas. Já durante os picos de crescimento, ele precisará ficar mais tempo mamando e fará intervalos muito pequenos, pois com isso promoverá o aumento da produção de leite materno para se adaptar às suas necessidades.

Mas até que idade se deve fazer a livre demanda? Até o desmame? Não é importante criar uma rotina para o bebê?

A livre demanda é imprescindível ao menos até o primeiro ano. Até os 6 meses o único alimento deve ser o leite materno, mas após essa idade é necessário iniciar com a alimentação complementar. Ainda que o bebê coma, ainda não está maduro totalmente para ingerir tudo que necessita até aproximadamente um ano de idade, momento em que muitos dos dentes terão erupcionado e a mastigação se estabelecido como aprendizado completo.

Acho importante sempre pensarmos que estamos lidando com um bebê, que inicialmente é totalmente dependente e, com a maturidade, passa a uma independência parcial até chegar à independência total.  

Além disso, seu psiquismo está em formação e necessita primeiro do corpo da mãe, depois de momentos de afastamento/aproximação, precisará adotar um objeto transicional para aplacar a ansiedade de sua ausência (um ursinho, um paninho, a própria voz e olhar da mãe), até estar preparado para usar a linguagem e a subjetividade para evocar sua presença.

Esse é um processo lento e complexo, que depende da mãe e do bebê inicialmente, e depois do pai com a entrada da lei. Cada bebê tem seu tempo, sua maturação, momentos de regressão, por isso as regras e as idades fixas não funcionam e não devem pautar essa relação. Na verdade, cada mãe sabe o que fazer com seu filho e as interferências profissionais/familiares/sociais/culturais muitas vezes só atrapalham (inteferências relacionadas às ordens para desmamar de forma brusca, de culpabilizar a amamentação pela dificuldade para o bebê comer, que o leite já não possui nutrientes após determinada idade, que a criança ficará viciada na mama e que é só uma forma de dominação da mãe).

Acredito ser importante a mãe saber que o afastamento corporal paulatino é imprescindível para o desenvolvimento, autonomia e até a percepção da criança como sujeito. Aos poucos os interesses mudam, as demandas também, e quanto mais natural for esse processo, melhor!  

A livre demanda pode se manter após o primeiro ano, mas cada vez terá menos importância, pois o bebê terá outros interesses, não só de alimentos como também de relacionamento com o mundo além-mãe. Como no primeiro ano geralmente a mastigação adquire padrão próximo ao adulto e a criança consegue ingerir maior quantidade/qualidade, a livre demanda não é mais imprescindível, mas não é obrigatório suspendê-la nem que isso seja feito de forma brusca. O alimento passa a ter maior importância, pois a mastigação se impõe sobre a sucção como função mais importante (não esquecendo que a fase oral vai até o 2º ano de vida aproximadamente e que esta fase não se refere apenas à sucção, mas também à exploração de objetos pela boca).

É importante os pais terem em mente que é importante manter diálogo com a criança, e esse diálogo deve ser pautado sempre na verdade! Às vezes é possível iniciar uma conversa com a criança sobre isso, sobre talvez o cansaço, a falta de vontade, ou mesmo o próprio desejo de iniciar um processo de desmame, mas em algumas situações haverá necessidade de dar um passo atrás pela necessidade e imaturidade da criança.

A criança entende muito mais do que imaginamos, mas sempre será um trauma a negação do seio, que é a negação da satisfação! Na verdade, todos nós sofremos essa negação e ela é importante para vivermos em sociedade: temos que negar algumas satisfações para viver com os demais. A criança terá que aprender isso, mas aos poucos! Por isso a importância da comunicação franca e da presença da mãe para trazer segurança à criança.

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