Amamentação: proteção e nutrição física e emocional.

“A criança nunca é pequena demais para que lhe falemos a verdade”Dolto

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Essa frase de Françoise Dolto me saltou aos olhos durante a leitura de um de seus livros. Como sabem, sou apaixonada pela psicanálise infantil, não apenas porque atuo há 25 anos com bebês e mães, mas também porque a fase inicial da vida tem impacto sobre toda a história da pessoa, consciente e inconscientemente.

Todas as experiências infantis, especialmente com a figura materna, podem originar traumas e conflitos reais ou interpretações que determinarão a forma como um adulto pensará, sentirá, compreenderá o que o outro diz, agirá em diversas situações de vida.

Já atendi mães que, ao orientar que falassem com o bebê na barriga durante a gravidez ou após seu nascimento, responderam, com estranhamento, que não falavam porque o bebê não entenderia, que seria um papel de idiota, que as crianças pequenas não falam, como compreenderão?
Ao contrário, um bebê só irá falar depois que compreender a língua materna e tiver uma linguagem desenvolvida. A compreensão vem muito antes da expressão, isso eu aprendi na Fonoaudiologia, especialmente na área de linguagem e desenvolvimento infantil.
Além disso, a psicanálise orienta que é a linguagem que convoca o indivíduo à existência e que ele está submerso na linguagem antes do nascimento. A família já chama o bebê que virá pelo nome, já imagina características físicas, personalidade e até projeta uma profissão, sucesso. O bebê já se sente desejado pelos sonhos de seus pais, por meio de seu próprio narcisismo.
Se ele já é sonhado, já se existem planos para ele, se de acordo com os movimentos fetais o pai já identifica um futuro jogador de futebol, já existem expectativas sobre a sua vida, por que não se explica o que acontece à sua volta, com sua mãe, na gestação e após o nascimento?
A frase me impactou porque, em geral, ninguém se preocupa em explicar o que está acontecendo a um feto/bebê. Ele está imerso no ser materno, percebe o que lhe acontece e reage quando algo muda em seu comportamento.
Se a mãe está ansiosa, seu odor, batimentos cardíacos, tom de voz, a forma como pega e segura o bebê certamente mudam. E todos nós já percebemos que, nesses momentos, o bebê chora mais, fica inquieto, tem dificuldade para dormir, solicita mais a mamada ou o colo, mas simplesmente ignoramos que ele compreende que algo está errado, só não sabe o que.
Em um dos casos que atendi, o bebê tinha grandes dificuldades para mamar, a ponto de estar em processo de desnutrição. A mãe, desesperada, desejando amamentar, determinada a fazer qualquer coisa para o bebê se alimentar. Inicialmente, realizei anamnese, avaliação, observação de questões físicas, mas o que mais me chamou a atenção foi a falta do olhar e da conversa com o bebê. Ao orientá-la, mesmo a contragosto (porque achava estranho falar com alguém que não compreendia), começou a olhar, conversar, explicar o que estava acontecendo, pedir sua ajuda no processo… O resultado? Depois de cerca de 4 meses de dificuldades, em apenas 3 dias o bebê voltou a mamar, a produção de leite retornou, ambos passaram a aproveitar a relação e nunca mais houve dificuldades!

Nessa situação, Laura Gutman também defende que o bebê, além de compreender, colabora com a mãe quando lhe é explicado o que está acontecendo!

Outro caso que atendi foi de uma gestante que estava muito deprimida após o resultado de um exame gestacional em que o médico a alertou sobre o risco de malformação ou síndrome. Ela estava muito triste e amedrontada, nada a fazia se acalmar.

Fizemos acompanhamento emocional, ela foi compreendendo as causas dessa depressão, além da preocupação completamente esperada de uma mãe para com seu bebê, mas após a realização de outro exame e a certeza de que tudo estava bem, orientei que ela falasse com o filho, explicando o medo que estava sentindo, que o amava e desejava muito, o como se culpava pela possibilidade de que ele não estivesse bem, mas que aquilo havia passado e tudo estava bem, para que ela pudesse ficar tranquila e crescer normalmente. Assim a gestação correu bem e a bebê nasceu linda e saudável.
Uma última situação, que eu tenho atendido bastante, é com relação ao sono. A mulher chega a um ponto de exaustão que precisa voltar a dormir, o bebê muitas vezes já está maior, mas demanda a noite toda a atenção materna. Após todo acompanhamento, observação das rotinas, das demandas emocionais maternas e intervenção sobre estas, oriento a mãe a conversar com seu bebê quando ele está acordado e dormindo. Explicar o quanto está exausta, o quanto precisa dormir um pouco, o quanto o bebê pode ajudá-la dormindo melhor também, que o stress é pelo cansaço, que o ama muito e gostaria de aproveitar melhor o dia com ele. Os resultados são lindos: com os dias, e as repetições das falas, os bebês compreendem porque as mães estão tensas e colaboram com elas, dormindo mais e mais tempo.
Dessa forma, fica nítido que o bebê compreende, sim, o que lhe é dito, mas é preciso dizer, pois ele não pode adivinhar. Não tem um pensamento organizado, não tem percepções complexas, não consegue elaborar possibilidades. Apenas reage ao que sente de sua mãe, a pessoa que ele conhece desde sempre. A princípio, estão em relação dual, como uma só pessoa, e aos poucos ele percebe que são duas pessoas diferentes, mas ainda em íntima relação.

Por isso, fale com seu bebê. Se está triste, explique as causas, deixe-o tranquilo, peça sua ajuda. Seja sincera, peça perdão se for necessário, reafirme seu amor. Você verá como ele está disposto a ajudá-la, pois você é o grande amor da sua vida!

 

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