Amamentação: proteção e nutrição física e emocional.

Compressas, usar ou não usar: eis a questão!

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O uso de compressas, sejam frias ou quentes, é muito divulgado entre mães e profissionais, tanto para aliviar ingurgitamento quanto para auxiliar na ordenha ou mesmo para reduzir o fluxo lácteo, mas será que o uso das compressas é seguro?

 

Para começar, vou explicar um pouco sobre a ação das compressas no organismo, especialmente na mama, de acordo com Enkin et al. (2000), Jones (2010), Reinaux (2010).

 

Compressas quentes (termoterapia):  o calor é indicado para casos de inflamações agudas e crônicas de uma lesão, pois, em geral, produzem redução da dor, do espasmo muscular, de hematomas e de contraturas articulares, já que tem ação de vasodilatação, aumenta o metabolismo celular e a permeabilidade dos capilares, melhora a drenagem venosa e linfática.

Na mama, o efeito principal seria na redução da dor pelo aumento do metabolismo celular e, consequentemente, dilatação e aumento do fluxo dos capilares. O grande risco do uso das compressas quentes está principalmente no fato de que, em decorrência do aumento da temperatura das mamas em algumas situações (ingurgitamento e mastite, por exemplo) a mulher pode não perceber que a temperatura da compressa está elevada, o que pode gerar queimaduras.

Alguns estudos revelam que há redução da dor em caso de fissuras mamilares. Já no ingurgitamento ou mastite, pode haver redução da dor inicial e piora do quadro caso não seja realizada ordenha da mama imediatamente. Além disso, há sempre o risco de vasoconstrição como efeito rebote, o que pode aumentar a dor.

 

Compressas frias (crioterapia): ainda que sejam amplamente utilizadas no tratamento de lesões agudas dos tecidos moles, não há explicação clara sobre os efeitos fisiológicos desse tipo de estratégia. O frio reduz o edema (inchaço) devido à ação de vasoconstrição, com redução do metabolismo. O risco do uso de compressas frias é a ocorrência de lesão por congelamento.

Geralmente as compressas frias são utilizadas para reduzir o fluxo lácteo ou ingurgitamento, no entanto se a mama estiver cheia, a vasoconstrição aumentará a dor e pode tornar difícil a expressão do leite. Muitas vezes também a compressa fria é utilizada sem o conhecimento adequado, o que pode causar efeito rebote de vasodilatação, com piora  do ingurgitamento.

 

Algumas mulheres apresentam o Fenômeno de Raynaud, que é caracterizado pela redução da circulação sanguínea em extremidades do corpo, podendo atingir também os mamilos. Nesses casos é completamente desaconselhado o uso de crioterapia, pois piora a circulação e a dor.

 

As compressas frias e quentes, apesar de largamente utilizadas, não tem comprovação científica categórica quanto a suas vantagens (Jones, 2010)! Antes de ouvir um conselho deste tipo, consulte um profissional! O ideal é que, se houver mesmo necessidade de uso, a mãe seja acompanhada presencialmente, controlando os períodos de uso, a temperatura, os intervalos e, principalmente, que o manejo correto seja realizado em cada caso.

 

Alguns profissionais orientam também o uso de folhas de repolho (muitas vezes resfriadas) para o alívio do ingurgitamento, no entanto, não há comprovação científica e este uso é considerado uma forma de assistência cuja eficácia ainda é desconhecida.

 

Existem técnicas mais adequadas e comprovadas para cada dificuldade, por isso, ao invés de utilizar, sem orientação, compressas, dê preferência a outras formas de alívio:

 

se a mama estiver ingurgitada, fazer massagem circular, da aréola para a mama e ordenha manual (ou com bomba elétrica), colocar o bebê para mamar com frequência, em livre demanda e, caso permaneça leite nas mamas, expressar o máximo possível, mantendo-as sempre esvaziadas

se a mama estiver quente, cheia, se houver febre, mantenha a ordenha e coloque o bebê para mamar. Se necessário, consulte um médico que determinará o melhor tratamento para o caso de mastite

se houver grande produção de leite (hipergalactia), faça apenas ordenha de alívio e coloque um top que contenha a mama ou faixa que fique justa (sem apertar). A ordenha ampla das mamas promoverá maior descida de leite neste caso, então não é indicada.

no caso do mamilo ficar esbranquiçado e dolorido ou fissurado, corrija a pega do bebê.

para aumentar a produção de leite, mantenha as mamas esvaziadas e o bebê amamentado em livre demanda. Quanto mais leite for retirado, maior será a produção.

 

As compressas podem ser utilizadas em alguns casos, inclusive há estudos sobre o uso alternado de compressas frias/quentes (chamado de contraste térmico), mas a orientação e acompanhamento de um profissional qualificado faz toda a diferença. Utilizar as compressas por conta própria pode piorar o quadro e trazer outros problemas, por isso, muito cuidado!

2 Comments
  • Cristiane maio 27, 2016, 11:14 am Responder

    Ótimo texto informativo! Uma questão, numa fase de ingurgitamento não será perigoso fazer extração com bomba elétrica? Não se corre o risco de haver um aumento acentuado de leite?

    • Drª Cristiane Gomes maio 31, 2016, 12:21 am

      Olá, se o leite não for extraído quando a mulher tiver ingurgitamento, o risco de se tornar mastite é muito grande. O leite parado na mama prolifera bactérias. O ideal é sempre realizar o amaciamento da aréola para favorecer a pega e ordenha do bebê. O bebê deve esgotar a mama com frequência exatamente para manter a produção e suprir as necessidades! Com o tempo, a produção se adaptará à demanda, mas no início a produção é maior do que ele pode ingerir. Espero ter ajudado. Beijos

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