Amamentação: proteção e nutrição física e emocional.

Como mãe, fiz algo que me arrependo, e agora?

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Praticamente todas as mães que atendo, tanto no contexto da consultoria de amamentação quanto da psicanálise, relatam a intensa culpa que assola seu emocional. Culpa por não ter conseguido o parto natural almejado, culpa por não ter conseguido amamentar, ou ter amamentado pouco, ou ter amamentado e lançado mão da fórmula, culpa por cumprir recomendações de deixar chorar até dormir, não dar colo para não “acostumar”, culpa por ter que retornar ao trabalho. Culpa, culpa, culpa.

 

Muitas vezes essa culpa é resultado de uma autocobrança de ser uma mãe perfeita, de ser melhor que sua própria mãe, por acreditar que cometeu os mesmos erros que ela, ou que deveria ser como ela, caso a visão tenha sido de uma mãe maravilhosa.

 

A culpa também pode ser decorrente da percepção de que, naquele momento, a mulher não teve condições de dar ao filho o que gostaria, ou o que ela acreditava ou sonhava que poderia dar. Outras vezes, por não estar emocionalmente pronta, preparada para a incrível demanda de um bebê ou porque vivenciou, inconscientemente, situações perturbadoras que acabaram por distanciá-la do filho.

 

Independentemente da fonte da culpa, a boa notícia é que a mulher pode minimizá-la ou até mesmo eliminá-la por meio de uma análise com profissional ou até mesmo por reflexões individuais (claro que um profissional tem ferramentas para auxiliar no autoconhecimento de qualquer pessoa e favorecer a percepção de conteúdos que, sozinha, a mulher poderia não ter acesso).

 

Mas como ser livre na maternidade? Como eliminar a culpa e viver com vinculo saudável com o filho (ou marido, ou mãe, pai, sogra, extrapolando para outras relações….)?

 

Hoje vou abordar uma das formas que aprendi na Teoria do Apego, de John Bolwby.

 

É importante saber que o vínculo, ou apego, é uma necessidade básica que supera as necessidades físicas. É alimento emocional e, portanto, específica, direcionada e dependente de envolvimento emocional, por isso, no caso de mãe e bebê, é essencial!

 

Muitas vezes o vínculo não é instantâneo, ao contrário, precisa de tempo, contato, constância para acontecer, assim como quando nos envolvemos no relacionamento amoroso.

 

Outra questão importante é que a vinculação nos chama à interdependência, num mundo que prega e cobra a total independência, autonomia e auto-autosuficiência. O apego é o contrário da independência, pois revela que precisamos uns dos outros, desde o nascimento, para termos saúde emocional.

 

Por outro lado, todo vínculo sofre quebras, já que somos humanos e, ao alimentarmos expectativas nessa vinculação, fatalmente seremos frustrados.

A boa noticia é que sempre será possível fazer o que chamamos de reparação do vínculo. Mesmo que falhemos (o que é inevitável e totalmente previsível) e não consigamos corresponder às expectativas do outro (seja ele quem for, inclusive o filho), a reparação é uma forma de construção de um novo vínculo, em outras bases.

 

Isso é lindo! Apesar de nossa sociedade não admitir reparação, pois esse movimento aparenta fraqueza, ela é a forma de recomeçarmos, sob outros princípios, totalmente livres do que quer que tenha acontecido. Passou.

 

Como é possível fazer uma reparação com meu bebê, se eu não amamentei, deixei chorando até dormir, agredi na hora da raiva, etc?

 

Em primeiro lugar, a reparação é possível quando trocamos a palavra CULPA pela palavra RESPONSABILIDADE (como diria Lacan). Se nos responsabilizamos pelo que aconteceu, sendo nossa culpa ou não, podemos agir de algumas maneiras:

1) nos expressado de forma realmente arrependida, com humildade, reconhecendo que não agimos como gostaríamos ou deveríamos (eu gostaria muito de ter amamentado, sonhei com isso, mas não foi possível por n questões);

 

2) explicando o que aconteceu e expondo os porquês, ou seja, colocando o seu ponto de vista (não amamentei porque tive medo do meu leite não ser suficiente, porque fui orientada a deixar chorar para não causar dependência emocional);

 

3) reconhecendo e se arrependendo (eu reconheço que não deveria ter batido em você, que eu poderia ter conversado e explicado);

 

4) proporcionando uma oferta de mudança das bases da relação (a partir de agora quero que nossa relação seja diferente, eu vou me esforçar para conversar e não gritar, ou sempre atender você quando precisar de mim e gostaria que você sempre e procurasse quando precisar) e

 

5) pedindo perdão de forma sincera.

 

Se estamos falando de um bebê, parece muito estranho, não? Dolto diz que a criança tem o direito de saber a verdade, que ela compreende e colabora conosco, ainda que acreditemos que ela não compreende porque ainda não se expressa na mesma linguagem que nós. A mãe pode, sim, assim como o pai, a avó, conversar com o bebê e explicar o que está acontecendo, os porquês das quebras vinculares e as propostas de reparação!

 

Você não precisa viver na culpa! Repare os vínculos quebrados com seu bebê e com qualquer outra pessoa que ame e seja feliz!

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